Imagino que existem pessoas enclausuradas em si mesmas, em seu mundo particular, em suas próprias mentiras. Na verdade, muito mais que imaginar, eu tenho noção que isso existe. Ouvi (e ri, claro) a famosa piada do filho de pastor que vai de malas para a Igreja, querendo morar lá. Sua justificativa é celebre: “quero vir pra cá porque meu pai aqui é muito mais legal e bonzinho”.  O fato pode ser anedota, mas a história é real.

Quando comecei nessa jornada de “blogs” e afins, conheci a blogosfera cristã, da qual faço parte com muita alegria até hoje. Fui atraído e impactado pelos blogs de pessoas que comentavam sobre as hipocrisias dos cristãos, “descendo a lenha” na Igreja, “chamando pra responsa”  e por aí vai. Nesses artigos, nenhuma vírgula de mentira, porém, quilos do que eu chamaria de “falta de sabedoria”. Hoje, eu descubro que o problema todo não é exatamente o que víamos na época (e que segue acontecendo até hoje).

Se um relatório pode te ajudar a entender melhor sobre o que falo, a Igreja hoje vive uma crise moral como nunca viveu em nenhum período de sua história. A situação só esteve tão caótica nos períodos pré-reforma: Falta a credibilidade, programas de TV e “teólogos da prosperidade” contribuem em manchar a imagem do Evangelho, escândalos envolvendo pastores são páginas de todos os noticiários diários, o número de abortos e jovens grávidas é cada vez maior entre os cristãos, jovens tem encontrado mais apoio no mundo para assumir sua homossexualidade do que reforço na Igreja para alcançar algum tipo de libertação, o reino pregado é o da desunião com o ministério do outro (que não deveria ser alheio), e o interesse maior dos cristãos está numa “vida estável”, e não em missões e sua “instabilidade” (como deveria ser).

Enumerei pouca coisa porque meu objetivo não é me juntar aos que contam mazelas. Esta semana, caminhando pelo centro da cidade, encontrei um ex-membro de minha Igreja, que se desviou a quase um ano. O encontrei fumando e usando roupas bem “esquisitas” (ao meu ver). Tê-lo encontrado me causou dor, mas me ofereceu uma reflexão ainda maior: o que será que era a vida daquele cara enquanto ainda estava congregando?

Eu presumo que não era uma coisa muito fácil. É difícil ser o que não se é e forjar uma mentira por muito tempo. Durante o ano passado, entre os cristãos que convivo, pude observar muitas máscaras caindo. Confesso que essa situação não é nada fácil para quem olha, imagino que seja mais difícil para quem a vive. Uma hora você se perde entre as mentiras que conta, que veste, que fala nos púlpitos e nas reuniões de discipulado. Imagino que chega uma hora que tudo isso se torna um emaranhado gigantesco, e uma hora, a bomba explode.

Existem dois caminhos a seguir aqui: confessar o erro e procurar ajuda, ou afundar ainda mais e voltar ao mundo, “comer o próprio vômito”, como Pedro diz. O Egoísmo é mesmo um veneno. Eu o compararia com as diversas drogas lícitas e ilícitas que existem por aí: fazem mal, mas os usuários insistem em consumir, garantindo que aquilo é bom. Eu diria que, em algum momento, todo cristão é viciado em egoísmo. Essa é uma das libertações mais sérias que existem.

Descobri ultimamente que meus amigos estão mais preocupados consigo mesmos do que comigo. Isso contraria um pouquinho o princípio da amizade e do próprio amor. Jesus nos disse que o amor “dá a vida pelos amigos”. E como ele mesmo comprovou, não é só a vida no sentido de morrer, mas dar a vida inteira, entregar-se em serviço ao outro. Acho que foi com isso que Jesus sonhou uma noite antes de lavar os pés dos seus discípulos: uma comunidade vivendo em prol de si mesma, amando-se profundamente, a ponto de causar “vontade de experimentar” tal amor nas outras pessoas. De tal modo, a Terra estaria renovada.

Acontece que pensamos demais em nós mesmos, no que vamos parecer, no que vamos aparentar para quem nos vê. Daí nasce tudo: a ganância, o amor pelo dinheiro, as feridas e rejeições no outro, as mentiras que nos enredam. Enquanto isso satanás ri, pois enquanto pensa em si mesmo, o homem dito “regenerado” se afasta da verdade. Acontece que a verdade é uma pessoa. (João 14.6)

Não se faz mais necessário ficar aqui acusando a Igreja disso ou daquilo, de fazer ou não fazer tal e tal coisa. O problema todo está no egoísmo e na falta de relacionamento com a verdade. Se as pessoas preferissem a verdade, elas seriam curadas, mesmo por meio da dor. Se todos preferissem a verdade, ajudariam em vez de apontar falhas. Parece que nos esquecemos quase sempre que não somos o centro de nossas vidas. Escolhemos por livre e espontânea vontade colocar outra pessoa no centro das atenções, pensamentos e planos. Escolhemos mesmo?

Eu acredito na verdade. Acredito que ela foi presa e condenada à morte para que eu fosse livre hoje, junto com você.

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