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José Perez Montero é meu artista bíblico preferido. Li sua “Bíblia Ilustrada Para Crianças” quando tinha 12 anos e nunca mais desenhei da mesma forma. Ele foi uma grande influência pra mim e estou muito feliz em utilizar seus desenhos para ilustrar minha série sobre Ana, daqui para a frente.

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Elcana casou-se outra vez por um motivo óbvio: Ana não tinha filhos. Frase infernal que se repetia em sua mente e nas conversas da família: Ana não tem filhos, Ana não tem filhos. Quase um mantra. Ela já não aguentava mais ouvir a mesma coisa, praticamente todos os dias. Quando parecia que as pessoas se importavam com ela e não com o seu ventre, em leves momentos de distração, alguém logo tratava de ressuscitar o assunto: Ana não tem filhos. Cansava. Uma coisa interessante sobre a Bíblia, é que as histórias das pessoas estão resumidas aos fatos mais importantes. Nós esquecemos de “entrar” na vida das pessoas ali retratadas e tentar entendê-las. Quando faço isso com Ana, encontro mais a mim mesmo ali, retratado, do que eu mesmo imagino.

A Penina nossa de cada dia

Como comentei, tenho minha própria Penina, me irritando quase que diariamente. A Bíblia fala que “Ana podia até esperar a próxima oportunidade para ser atormentada… Então era reduzida à lágrimas e perdia o apetite” (I Samuel 1.7 – THE MESSAGE). A mesma Bíblia dá a entender que Penina tinha muitos filhos, e como também citei, isso era uma honra para uma mulher oriental daquela época: ela honrava o nome de seu marido perpetuando sua linhagem com muitos descendentes. Só a existência de Penina já reduzia Ana a… quase nada, por mais que tivesse um papel importante: o da primeira esposa (e mais amada) de Elcana, o marido.

Quero que você entenda que não ter filhos era um problema grande naquela época. Para a minha vida, é um grande problema não ter filhos, da mesma forma. Quando eu falo de filhos, falo de sonhos, projetos realizados, metas alcançadas, discípulos… ou filhos carnais também. Ana sofria toda a sua vida apenas porque não tinha filhos, ela não conseguia suprir aquilo que se esperava dela. Logo, por mais que fosse muito amada, nada do que ela fizesse seria bom o suficiente, porque faltavam-lhe os filhos, faltava aquilo que poderia honrá-la como alguém útil. Para a cultura de Ana, não importava para uma mulher ser amada, mas sim ter filhos.

E Penina estava ali, crescendo e multiplicando-se… Fazendo apenas a sua obrigação como mulher, mas lembrando a Ana todos os dias que ela não era capaz de gerar. Ler sobre a história dessa mulher hoje me faz entendê-la muito mais. Imagino as pressões que Penina fazia frente à grande família deles, a sociedade e ao próprio marido. Diante de quem é melhor do que nós e precisa, por algum motivo, ficar ao nosso lado, trabalhar conosco ou fazer qualquer outra coisa, a humilhação é o único lugar onde nos encaixamos bem. Ana provavelmente passou anos sendo humilhada dessa forma, por mais que não se encontrasse um motivo “lógico” para isso. Apenas ela conhecia a própria dor.

Eu e meus bons bifes

Perco as contas dos dias em que sinto isso. Escrevo aqui após mais um dia de me sentir pequeno e incapaz, sem saber mais o que fazer. Ana pôde ver seus sonhos sufocados, seu futuro reduzido à solidão e ao abandono, apenas por não ter filhos. Confesso que também não tenho muitas perspectivas… Não tenho filhos, logo tudo o que eu já sonhei e planejei está em vias de ser cancelado. Recebo muito amor, muito amor, muito amor nominal que é instantâneamente esquecido quando se volta à frase que traz a realidade: eu não tenho filhos. Enquanto Penina sorri, os dias se seguem, e como Ana, eu nem quero comer mais.

Elcana era um marido exemplar, e dava a melhor parte dos sacrifícios para a mulher, que rejeitava tudo. O apetite havia ido embora. As dores eram tantas que ela nem conseguia ser amada. Claro, o que Ana gostaria de receber não era um bom pedaço de carne, mas o reconhecimento que Penina tinha, apenas porque tinha filhos. Eu tenho recebido meus bons pedaços de carne. Só o melhor, só as melhores oportunidades, as melhores portas… Mas sou tão envergonhado quanto uma estéril no antigo testamento: eu não tenho filhos. Já parei de acreditar que amor se mede com presentes ou coisas do tipo. Materialmente, pareço ser muito amado, mas também tenho perdido o apetite.

Ana sabia o lugar certo onde podia encontrar a pessoa certa, que podia reverter seu quadro. E foi o que ela fez, procurou essa pessoa. Porém não seria agora que as coisas iriam ficar fáceis. Deus estava no templo, mas ainda viriam outros julgamentos para serem enfrentados. Dentro da dor, todos os homens, até eu mesmo, corremos o risco de sermos mal interpretados pelos sacerdotes…

(Continua)

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