https://i1.wp.com/www.classicalhebrew.com/images/newsletter/hannah_2008/image1.jpgNão é nada disso que você está pensando” é uma das frases mais famosas que conheço. Você já foi pego dizendo algo desse tipo? Com aquela cara de criança com a mão no pote de biscoitos antes do jantar? Eu já, e sob dois aspectos diferentes: na maioria das vezes em que falei a frase, realmente estava mentindo, me preparando na mente com argumentos para fazer a pessoa acreditar que aquele “flagra” não era real. Porém, em algumas vezes, eu estava certo, não queria enganar ninguém: a pessoa estava realmente enganada.

Já ouvi alguém dizer que o tamanho do desespero de alguém o leva a fazer uma determinada loucura. Meu pastor diz sempre que “o que você recebe de Deus é do tamanho da sua busca”. Isso mesmo, tudo é uma grandeza diretamente proporcional. Com Ana era assim. Cansada das humilhações anuais no templo, ela correu o mais rápido que pôde, até onde poderia alcançar. Creio que deu com a cara na porta do lugar santo, no fim do pátio para mulheres. Ali era o lugar onde ela poderia se aproximar de Deus, era o máximo que ela conseguia… E ela se fez ser ouvida.

A oração de Ana é o grande “carro-chefe” de sua vida. Ela fica como assunto para um outro post. Aqui, quero falar do que pode acontecer quando alguém finalmente toma uma atitude do tamanho de sua dor, ou decide agir com toda a sinceridade de seu coração. Por mais que tais atitudes pareçam louváveis, nem sempre (quase nunca) são compreendidas por quem as observa.

Tem uma coisa que eu ensino sempre a meus discípulos e a quem precisar ouvir: Se existe um lugar onde se pode ser você mesmo e alguém pode se ver livre de máscaras e pressões sociais, esse lugar é a Igreja. Motivo óbvio: a presença de Deus está ali. Ora, se Deus, o criador, o que tudo vê, sabe, grava, entende e controla está vendo, então porque motivo precisamos “fingir” ou “forçar” alguma coisa? O foco das atenções em um culto, em um templo é Ele mesmo… Então porque complicamos tanto pensando tanto em nós mesmos enquanto estamos na presença do Pai?

Certo dia cheguei à Igreja muito abatido, já com toda a situação que tenho vivido, justamente o que tem me feito criar essa identificação com a mãe do profeta Samuel. Ao chegar lá, comecei a fazer aquilo que me é de costume fazer quando estou na Igreja. Interessante que as pessoas, mesmo cheias de boas intenções (há quem diga que é o inferno que abriga a maioria das boas intenções existentes), acabam dando umas bolas fora do tipo: “que cara é essa?” A medida que a autoridade da pessoa sobe, pode-se ouvir “ponha uma cara melhor“. Não quero me deter ao assunto, mas sinceramente não sei o limite entre o “viver por fé” e o “mentir para si mesmo”. Não gosto de deixar de expressar sentimentos. Se eu estiver mal ou bem, vai ser possível notar isso. Baseado em meu próprio temperamento, não gosto de julgar as pessoas pelo que vejo. Se elas parecem não estar bem, prefiro ouví-las a diagnosticá-las. Se eu não tiver oportunidade para isso, deixo passar… O juiz é Outro.

“Não é nada disso que você está pensando” foi a frase que Ana falou ao deparar-se com a bronca do sacerdote Eli, no templo. Ele estava analisando a situação de fora, e nem levou em conta os fatores que negariam o seu próprio pensamento: era muito cedo para uma mulher beber, e Ana de fato estava orando e chorando. Quando ouvi essa história pela primeira vez, a pregadora relembrava exatamente isso: nem todos nos compreendem, e por não compreenderem, decidem repreender ou talvez ferir ainda mais. Sim, a maioria dos homens é insensível, e crentes ou não, a alternativa mais fácil é sempre a escolhida (e sempre a mais danosa).

[Acusar: diante da avaliação externa nos tornamos bêbados, rejeitados, amargurados, rebeldes, manhosos, fracos, doentes, carnais… e por aí vai]

Aqui, tem-se uma escolha: podemos escolher não revidar o mal com o mal. Ana deu uma resposta muito educada ao sacerdote, e não retrocedeu um centímetro de sua postura sincera: “Não pense mal de mim, sou uma mulher muito angustiada, não bebi vinho nem cerveja (…) Estive aqui orando até agora por causa do meu grande sofrimento”. Não espere nada de bom dos homens, é natural que de um humano se obtenha farpas e agulhas. É o que tenho feito, e me decepcionado menos, enquanto escolho as respostas amáveis e sinceras sobre o que acontece. Ana ganhou uma bênção ao ser sincera com Eli. Ali, estava o segredo da resposta à oração dela.

Tenho me esforçado para chegar ao templo com sinceridade estampada no meu rosto. Depois de derramar meu coração diante dEle, tomo a decisão de levantar, enxugar as lágrimas e ir comer. Enquanto isso, “Ele começa a fazer os arranjos necessários para atender o meu pedido” (I Sm 1.19 THE MESSAGE)…

(Continua)

Anúncios