Hoje, os carros que peguei passaram por diversos semáforos. É difícil ver uma luz vermelha de sinal e não me lembrar de você… Não lembrar do seu daltonismo no meio da avenida mais movimentada da cidade, enquanto todos gritávamos com caixas de sorvete derretendo sobre as pernas. Fica difícil não lembrar de você olhando as pessoas passando, histórias ambulantes, “quems”, “quandos” e “porquês”… Gente preta, azul, branca, vermelha, amarela. No meio dessa salada de gente, você saltou do nada, voando sobre um cartão escrito em letra de forma sobre uma arte que eu já tinha desenhado milhões de vezes, para o inescrutável lado de dentro do meu coração.

E no meio desse turbilhão de pessoas que vem e voltam, eu fico procurando alguma coisa sua, algo que se pareça com você. Passam-se os anos, e até seu rosto não me é mais tão familiar… Nem o rosto, nem o abraço, nem o coração. I never thought I’d need you there when I cried.

Hoje eu abri comida em conserva umas duas vezes, e joguei os pacotes laminados por dentro no lixo. Impossível não lembrar que tais maravilhas da alimentação contemportânea surgiam de todo lugar, de todas as formas. Me lembrei de como era delicioso ser surpreendido, sem motivos, sem que eu precisasse fazer por onde, por alguma carta ou alguma demonstração de amor. Naquela época, as linguagens do amor não eram moda, mas você sabia como usá-las muito bem, como quando o Pete ficou doente e foi parar no hospital, ou o Jim precisava de apoio por simplesmente não conseguir uma ligação bem sucedida para Atlanta.

Lembro de como as minhas primeiras orações eram sem jeito, e que eu ficava roxo sempre que pedia para que Ele te abençoasse. Você foi o único que disse a mim mesmo que iria provar que eu era de fato uma pessoa especial. Nem precisava ter feito tudo aquilo que aconteceu aquela noite, nem ter escondido a fatia de torta alemã na parte de baixo da cadeira… Só sua vontade em fazê-lo me fazia sentir a pessoa mais especial do mundo, como talvez eu nunca tenha me sentido antes.

Sinto saudade por razões óbvias: os “mil modos para dar bom dia” não existem mais, nem as ameaças de morte com cintos ou talheres (ou os efeitos colaterais de pratos baianos! Hahaha). Tudo isso é parte da minha caixa de lembranças, para onde volto em dias como hoje, em que as coisas simplesmente acontecem e em segundos vazios como papel branco, eu apenas me lembro que precisava das suas palavras, dos seus braços, e incrívelmente, das suas piadas em português mal explicado. Isso tudo não existe mais por minha escolha, porque Ele decidiu por nós, porque renunciei o conforto da minha casa pelos sonhos dEle, o que geralmente se chama de “propósito” para a minha vida.

O amor dEle vale a pena, mas as boas cenas vão ficando raras, aos poucos. É um tempo de muita dor, e tudo parece ficar um pouquinho mais difícil sem você por aqui (ou sem mim por aí, tanto faz!). Por mais que seja “gritar ao vento”, eu queria dizer… that I miss you.

Your “Red T-shirted rapper Prince”,
Jeff.

 

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